A Ata do Copom desta terça-feira (14) buscou apaziguar os ânimos em torno do dissenso nas votações da semana passada, além de trazer mais detalhes sobre as razões que levaram o Comitê a crer em uma mudança no cenário macro da última reunião para cá.
O dissenso: debate foi em torno do forward guidance. Será? No parágrafo 18, os diretores que optaram pelo corte de 50bps sob a justificativa de que o não cumprimento do forward guidance (FG) poderia implicar em uma perda de credibilidade, dado que houve um debate se, de fato, o cenário prospectivo divergiu significativamente do que era esperado. Ainda sob o argumento para o corte de 50bps, estes membros afirmaram que as expectativas de inflação são mais afetadas pela taxa de juros terminal do que pela redução de 50bps. Ao final do parágrafo, o texto ainda trouxe a seguinte frase:
” Por fim, tal grupo enfatizou a necessidade de flexibilidade das decisões nas reuniões a partir de junho, o que permitiria, à luz de novo conjunto de informação, calibrar a trajetória do instrumento de política monetária da forma apropriada.”
Do nosso lado, entendemos que as razões citadas pelos membros dissidentes trazem alguma fragilidade ou, no mínimo, uma clara divergência não apenas do uso do FG, mas sim de análise da evolução do cenário. Ao longo de toda a Ata, fica evidente a elevação as incertezas do cenário externo (em razão dos dados recentes de inflação nos EUA e da postergação do início dos cortes de juros pelo Fed) e da maior resiliência do cenário doméstico, predominando a surpresa altista em torno do mercado de trabalho, que tem ganhado tamanho dinamismo a ponto do Comitê (finalmente) admitir que tem feito reavaliações do nível do hiato do produto.
Em relação a última frase do parágrafo 18, acreditamos que este trecho parece explicitar que “a necessidade de flexibilidade” é uma demanda apenas do grupo mais ‘dove’, dado que o grupo mais ‘hawk’ tem deixado claro, ou “com especial ênfase”, que não demanda flexibilidade para as decisões futuras de política monetária, mas sim apenas um drive para continuar a cortar os juros: que haja reancoragem das expectativas de inflação até o próximo Copom.
As razões da recente desancoragem das expectativas de inflação. No parágrafo 9, a Ata traz o debate sobre os possíveis motivos para este movimento: (i) a piora do cenário externo, (ii) os recentes anúncios de política fiscal e (iii) a potencial piora da credibilidade do Banco Central em cumprir as metas de inflação no longo prazo. Vamos ao exercício: se o grupo mais ‘hawk’ demanda reancoragem das expectativas nos próximos 45 dias para cortar novamente a taxa Selic, qual dos três fatores anteriores apresentará melhora significativa?
Overall: sem reancoragem, sem cortes. Analisando o texto, vemos que a probabilidade de manutenção da taxa Selic em 10,5% aumentou consideravelmente, dado que o grupo ‘hawk’ está sensível apenas à trajetória prospectiva das expectativas de inflação até a próxima reunião do Copom. Adicionalmente, caso a decisão de junho seja de manutenção em razão da contínua desancoragem e se repita o dissenso de 5x4, o efeito sob a credibilidade do Banco Central será ainda mais afetada.
Com tudo na mesa, ainda vemos uma apertada maioria (~55%) para um corte de 25bps em junho, mas imputamos viés altista a Selic terminal de 10%.
BTG Pactual Macro Strategy


